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Ética do Tradutor – Precisão

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Ética do Tradutor – Precisão

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É sempre bom salientar que o tradutor encontrará, durante a sua carreira, diversos documentos confidenciais, cuja divulgação seria considerada antiética em diversos aspectos.

Porém, no âmbito da tradução, o universo complexo da ética se desdobra em certas particularidades, que se estendem além da obrigação de confidencialidade.

De forma geral, os Estatutos do Sindicato Nacional dos Tradutores (SINTRA) regem a ética da profissão no Brasil.

O Prof. Leandro Karnal, em sua brilhante palestra de abertura do VIII Congresso da Associação Brasileira de Tradutores (ABRATES), mencionou os contos de O tradutor cleptomaníaco, do escritor húngaro Dezsö Kosztolányi, que, em síntese, e de forma irônica, retratam o compromisso que o tradutor tem com a verdade do texto e a intenção do autor.

Em certa parte do conto, que invoca um sujeito de nome Gallus, após descrever o defeito deste último, que era roubar, o autor expõe os fatos:

[…] Mais abaixo, no fim da terceira página, li na edição inglesa: “A condessa Eleonora estava sentada num dos cantos do salão de baile, vestida para a noite, usando as velhas joias da família: tiara de diamantes, herdada da sua tataravó, esposa de um príncipe alemão; sobre seu colo de cisne, pérolas verdadeiras de brilho opaco; seus dedos quase se enrijeciam com os anéis de brilhante, safira, Esmeralda.

O manuscrito húngaro, para minha grande surpresa, assim trazia: “ A condessa Eleonora estava sentada num dos cantos do salão de baile, vestida para a noite…” Sem mais. A tiara de diamantes, o colar de pérolas, os anéis de brilhante, safira e esmeralda haviam desaparecido. Compreendem o que fizera esse infeliz escritor, merecedor de um futuro melhor?  

Como no conto, a infelicidade do indivíduo (tradutor) se dá exatamente pela violação de um dos princípios éticos: não roubarás!

Não roubarás nada na tradução! A ética pede que tudo seja incluído de forma fiel, o que no Brasil se encontra articulado nos Estatutos mencionados acima, no capítulo I, §1, cuja redação é a seguinte: “respeitar os textos ou outros materiais cuja tradução lhe seja confiada, não utilizando seus conhecimentos para desfigura-los ou alterá-los.”

Assim, a precisão também se torna um dever ético do tradutor.

Porém, levando-se em conta que um pouco (do sentido) sempre se perde em qualquer tradução, o que então se considera como sendo precisão?

Precisão na área de tradução é a preservação do significado, estilo e registro do documento original, incluindo também a representação textual de padrões de fala, que podem representar fenômenos socioculturais.

A peça Pigmaleão, de George Bernard Shaw, que mais tarde inspirou o filme My Fair Lady, é um dos exemplos de representação textual de padrões de fala. Na peça, Eliza Doolittle é uma mendiga que vende flores em Londres e que fala cockney, um dialeto utilizado na área do East End, em Londres, que mais tarde veio a ser atribuído a pessoas ignorantes, sem cultura e rudes.

Imagine que a tradução de Pigmaleão para o português apresentasse uma Eliza Doolittle que dominasse a norma culta. O tradutor teria então, violado, de forma grave, um dos princípios éticos.

A ética é uma questão abrangente. Para saber mais sobre ética na área de tradução, acompanhe nossos próximos posts!

Katia Gibbs – Tradutora e Intérprete

Eline Bélier – Revisão

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